Portal Escritores Vozes

O Autor

Este é seu canal de aproximação com os Autores da sua preferência. Faça uma busca utilizando o campo abaixo ou procure na listagem abaixo.

Biografia

Eduardo Hoornaert

 

APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS DE

EDUARDO HOORNAERT

EM GRANDE PARTE EFETUADOS COM A COLABORAÇÃO

DA EDITORA VOZES.

 

Eduardo Hoornaert

Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo

 

1. Um breve CURRICULUM VITAE.

 

Nasci em Bruges, Bélgica, no ano 1930.

Curso secundário: Colégio São Luís, Bruges, Bélgica, 1942-1948.

Cursos superiores:

1. Línguas Clássicas e História Antiga,

Universidade de Lovaina, Bélgica, 1949-1951.

2. Curso Superior em Teologia,

Seminário diocesano de Bruges, Bélgica, 1952-1955.

Em setembro 1958 fixei residência no Brasil, passei a viver sucessivamente em João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), Fortaleza (1982-1993) e Salvador (1993-).

 

Atividades acadêmicas exercidas no país:

1. Professor catedrático em História da Igreja nos Institutos de Teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), Fortaleza (1982- 1991).

2. Membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), entidade autônoma fundada em 1973 em Quito, Equador. Dentro da Comissão fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e desde 1993 responsável pelo projeto "História do Cristianismo".

3.Membro fundador da Third World Church History Comission, fundada em  1981 em Basiléia na Suiça e filiada à  Ecumenical Association of Third World Theologians (EATWOT).

4. Entre 1994 e 1997 Pesquisador Visitante no Mestrado de História da Universidade Federal da Bahia, com bolsa pelo CNPq.

Atualmente sou "free-lancer" em campos de história do cristianismo, e escritor.

 2. Minha evolução como PROFESSOR NO BRASIL, durante os 33 anos em que ensinei História da Igreja.

 Penso ser impossível entender minha produção literária, que se inicia em 1973 com a publicação de meu primeiro ensaio pela Vozes, sem saber algo sobre meus 33 anos de Ensino de História da Igreja no Nordeste, que conto aqui em termos de um depoimento em 15 pontos.

 1. Cheguei em setembro 1958 em João Pessoa, Paraíba, sem saber absolutamente nada acerca da História da Igreja no Brasil. Nem sabia falar o português. Mas acontece que o bispo auxiliar, Dom Manuel Pereira, observou que nas malas que trouxe da Bélgica figuravam alguns volumes da "Histoire de l` Église" de Daniel-Rops. Ele me abordou: Você vai dar História da Igreja aos seminaristas (naquele tempo havia um seminário maior em João Pessoa). Respondi: Nem sei falar português. E ele: Fale em francês, que eles entendem. Desta forma comecei a ensinar História da Igreja em francês, quinze dias depois de minha chegada. Meus alunos nunca me disseram se tinham entendido algo de minhas primeiras aulas.

 2. Ao lado do trabalho como professor improvisado fui logo desde o início vigário coadjutor no bairro de Bayeux, subúrbio de João Pessoa. Visitando as casas impressionou-me vivamente a imagem do Padre Cícero que se encontrava na entrada de quase todas as casas com os dizeres: "Deus abençoe esta casa". Indaguei junto ao clero local sobre o significado daquela imagem e tive que aguentar as respostas mais negativas: o povo é ignorante, esse padre foi um apóstata, foi privado das ordens etc. Comecei a ler sobre o assunto e a questionar meus alunos sobre o caso. Aos poucos nasceu em mim a convicção de que a História da Igreja ensinada na Paraíba tinha que começar pela História da Paraíba, senão ficava flutuando no ar sem chegar a interessar verdadeiramente os estudantes.

 3. Em 1964 resolvi viajar a Juazeiro e a Fortaleza afim de conhecer melhor algumas figuras históricas com as quais me tinha confrontado nas leituras: Padre Cícero, padre Ibiapina, Antônio Conselheiro. Falei com muita gente, reuni preciosas informações e recebi inclusive certos documentos inéditos em cima dos quais fui trabalhando em artigos e na publicação de livros como "Crônica das Casas de Caridade do Padre Ibiapina" (Loyola 1981), ou "Voz do Padre Cícero" (Paulinas 1985), ambos a partir de documentos manuscritos que me foram entregues em Juazeiro do Ceará. Esses estudos amadureceram em mim a idéia de que existiu no século XIX um trabalho pastoral muito valioso no Nordeste, a partir da tradição lusitana mais leiga e devocional, menos clerical e sacramentalista. Essa tradição foi desmoralizado e em certos casos destruído pela "romanização" da igreja católica no Brasil que começou a operar-se na segunda parte do século XIX. Comecei a valorizar mais o horizonte lusitano pre-moderno, de maior integração com o imaginário popular. Estava estabelecida assim um primeiro eixo de periodização da História da Igreja no Brasil: a romanização. Em 1965 me mudei para Recife e fui ensinar no ITER: Instituto de Teologia de Recife (ITER).

 4. Na época do concílio, ou seja no decorrer da década 1960, usei comumente nas minhas aulas a "Nova História da Igreja"  de Aubert-Daniélou-Marrou-Knowles, que estava sendo publicada pela Vozes. Essa Nova História soube combinar bem as conquistas do Concílio Vaticano II com as pesquisas históricas. As chaves eram: ecumenismo, liberdade religiosa, atualização (aggiornamento), evangelização (em contraste com sacramentalização), refontização bíblica. Tudo isso animava muito os estudantes, sobretudo na hora de Medellin (1968). Nessa década tudo parecia possível: pensou-se que seria possível mudar muita coisa em termos de tradição eclesiástica em pouco tempo. Falou-se da abolição do sistema paroquial, do surgimento das Comunidades de Base, do fim da lei do celibato etc.

 5. Em 1973 saiu o livro de Gustavo Gutiérrez: "Teologia da Libertação". O pobre despontava como grande desafio. O estudo da História da Igreja doravante seria encarada "a partir do pobre". Em 1974 publiquei o ensaio "Formação do Catolicismo brasileiro 1550-1800: Ensaio de Interpretação a partir do Povo". Com esse livro conquistou-se, um espaço acadêmico novo com a cadeira: História da Igreja no Brasil, que antes não existia. Conseguimos inclusive que essa matéria fosse obrigatória na Propedéutica ou seja no Curso de Filosofia. A finalidade desse curso, segundo o plano de estudo elaborado pelos professores do ITER, era dar condições ao aluno para situar-se diante da cultura religiosa do povo do qual nasceu e no meio do qual foi criado, numa perspectiva positiva e integrativa. 

 6. No segundo semestre de 1972 recebi por parte do historiador argentino Enrique Dussel o convite de participar da criação da Comissão de Estudos da História da Igreja na América latina (CEHILA) em Quito 1973. Assim tive a oportunidade, a partir de 1973,  de manter anualmente o convívio com historiadores provenientes de diversos países ibero-americanos, o que fez amadurecer a idéia de uma cadeira de "História da Igreja na América latina" na formação dos teólogos e pastoralistas no Brasil. Mas a idéia se defrontava com questões burocráticas: nos seminários e institutos de teologia a cadeira de História da Igreja só tinha quatro créditos: Brasil, Igreja antiga, Idade Média e Tempos Modernos. Nesse esquema não tinha como abrir espaço para uma História da Igreja na América latina. Só no primeiro semestre de 1983, na época em que ensinava no Instituto de Teologia e Estudos pastorais (ITEP) de Fortaleza, conseguiu-se introduzir esse crédito no currículo, sendo que a Igreja antiga e a Idade Média eram dadas dentro de um único crédito.

 7. O contato com os colegas na CEHILA fez com que  a data 1492 surgisse como uma data axial na minha maneira de entender a história, não só da Igreja na América latina, mas da igreja católica em geral. 1492 significava a exposição universal de um tipo de cristianismo que tinha sido apenas experimentado entre  camponeses, burgueses e nobres da Europa Ocidental, quando esta ainda era periferia do sistema islâmico. Com o tempo ficamos mais conscientes de como a hegemonia da Europa triunfante sobre a leitura da História da Igreja em geral estava distorcendo a compreensão toda dessa história e como era urgente a tarefa de se rever toda a história do cristianismo a partir do Terceiro Mundo. Consequentemente, a periodização nas minhas aulas foi reformulada segundo um padrão mais político e menos eclesiástico. Naquele período o estudo se concentrava sobretudo na história da América latina e do Brasil.

 8. Entre 1973 e 1982 fui vigário num bairro pobre da zona norte da periferia de Recife. Estávamos na euforia das comunidades de base e na solidariedade com a luta pelas liberdades civis no Brasil. Num pequeno quarto da casa paroquial elaborei a "História da Igreja no Brasil: época colonial" (Vozes, 1977): só cabiam mesmo uma mesa com a máquina de escrever, uma cadeira e uma cama. Voltava continuamente à máquina de escrever, no meio de muitos afazeres. Trabalhava em cima das fichas que tinha elaborado na preparação das aulas, muitas delas resumos de discussões com os estudantes. Temas como as confrarias, os beatos, as romarias, as devoções, enfim os temas da religião popular, foram ganhando corpo a partir dos questionamentos dos estudantes. Na época uma questão central era a seguinte: como conseguir um ponto de contato entre a "religiosidade popular" e a luta social e política?

 9. Com tudo isso meu ensino foi extrapolando os limites de uma "história da igreja" propriamente dita. Na realidade estava trabalhando com os estudantes temas da história do Brasil numa perspectiva cristã libertadora, uma "história do povo brasileiro a partir da fé cristã". A partir de 1977 fiquei responsável das "edições populares" da CEHILA, e logo entramos na literatura de cordel e publicamos, sempre pela Vozes, livrinhos sobre Aimberê, Antônio Vieira, Martinho de Nantes, o Negro Isidoro, Tibiriçá, Gabriel Malagrida, Sepé Tiaraju. Figuras de uma "história do povo de Deus", antes do que da "história da igreja".

 10. Desde 1982, com a minha mudança para Fortaleza, praticamente ensinei "história do cristianismo" ao meus estudantes no ITEP (Instituto de Teologia e Estudos pastorais). Meus autores não mais eram Daniélou, Marrou, Aubert, Knowles, Bihlmeyer-Tüchle, Jedin, mas sim Troeltsch, Harnack, Weber,  autores que já no início do século tinham colocado o estudo num patamar mais amplo que ultrapassasse o puramente confessional e institucional.   Também os franceses Clévenot, Delumeau, Duby, Le Goff, de Certeau, que veio duas vezes trabalhar conosco em Recife. O horizonte alargou-se. Compreendi que cristianismo não significa só "igreja", mas também "seita" e ainda "mística". O cristianismo é plural, engloba uma multiplicidade de experiências as mais variadas. Não se pode mais partir da igreja para entender a riqueza dessas experiências.

 11. Em 1983, numa reunião com os teólogos da libertação em Petrópolis, me solicitaram a redação de um trabalho sobre os três primeiros séculos do cristianismo, a época anterior a Constantino. Esse convite me fez retornar às origens do cristianismo numa perspectiva bem diferente. Em 1986 publiquei "A Memória do Povo Cristão" e a partir de 1988 fui articulando, com colegas da CEHILA, um projeto de se reler a história global do cristianismo na perspectiva do pobre. Atualmente esse projeto está em pleno curso e dos onze programados dois tomos já foram publicados.  O que me influenciou nesse novo trabalho foi a "nouvelle histoire"  francesa que partia da cotidianidade da vida vivida para daí entender a macro-história. Esse novo método -é claro- fez com que me aproximasse  sempre mais do estudo da religião tal qual, ou do "campo religioso", como se diz hoje.

 12. Era pois preciso mergulhar o cristianismo na corrente mais ampla da história das religiões. Aqui no Brasil o cristianismo deixou de ocupar o centro da cena -pelo menos metódicamente-, e entraram o candomblé, a umbanda, o espiritismo, a religiosidade ameríndia para contracenar com a religião dominante, sempre menos dominante. Impressionou-me muito, em 1983, a postura do Padre François de L`Espinay que dizia: Nosso posicionamento diante do candomblé deve ser ecumênico, não missionário. O cristianismo é uma das religiões que atuam no campo religioso, não a única nem a priori a melhor, pelo menos para quem se coloca do ponto da vista da cotidianidade.

 13. Com tudo isso meu ensino de "história da igreja" em Fortaleza foi se afastando muito dos parâmetros do que se entende classicamente por esse termo, dentro das casas de formação do clero católico. Os bispos do Ceará sempre mais se manifestavam nervosos com minha maneira de trabalhar com os estudantes em teologia e finalmente, em 1991, fui proibido de ensinar no ITEP. Chegou inclusive uma carta de Roma, assinada pelo cardeal Laghi, que mencionava explicitamente meu nome. Era o fim de uma caminhada bonita de trabalho direto com estudantes em teologia. O que não se interrompia era um trabalho indireto e muito menos gratificante na frente de um computador, a elaborar e publicar textos.

 14. Em 1994 publiquei a "História do Cristianismo na América Latina e no Caribe" (Paulus),  fruto de oito anos de ensino dessa matéria no ITEP  de Fortaleza. Parti da seguinte pergunta: De que modo o povo "usa" a religião cristã? Quais as necessidades da vida que correspondem à demanda de serviços religiosos cristãs  por parte do povo? Esses "usos populares da religião" invertem as questões que o historiador se coloca ao estudar o passado. A questão não é mais: como evangelizar?, mas é antes: o que está em consonância com a vida do povo? Como corresponder ao que o povo solicita na luta pela vida? Metódicamente não se parte do "postulado" da evangelização mas da evidência da vida e da luta pela vida. Não se fala mais em voz ativa mas em voz reflexiva, correlativa. 

 15. Resumindo esses trinta e três anos eu diria que evoluí de um professor de "história da igreja" para um historiador do cristianismo e daí para um estudioso dos "usos populares da religião", numa perspectiva histórica. Gosto de voltar para o tema da história da igreja, mas sempre "a partir do povo", ou seja a partir das necessidades da vida do povo: não só pão e saúde, mas também sonho e esperança.    

Contato

Entre em contato com o escritor através do formulário abaixo.
Nome:
E-mail:
Estado:
Cidade:
Mensagem:
Todos os livros no Escritores & Leitores são de responsabilidade editorial e legal dos usuários que os publicaram, sendo o papel do site exclusivamente de permitir a publicação dos mesmos
Copyright ® Escritores & Leitores - 2014
+55 53 9952.5859
+55 53 8138.1819
Design: Soma - Arquitetura e Design | Desenvolvimento: Lotus